sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Um lugar chamado tempo

Não estou convencida de que quem cura tudo é o tempo e que isso é um fato. Não é justo atribuir a esse senhor de barbas brancas e compridas a vitória sobre uma dor, uma angústia etc. Há os esforços pessoais sim! O tempo nada mais é que um espaço (ãhn?) onde (e não quando) é possível afastar-se do agente causador do sofrimento mesmo que o método usado seja distrair-se deste, pensar menos... mas, se pensa. Uma sucessão de pequenas feridas quando, por um acaso, o vento traz para aquele lugar em que se buscou refúgio um pedaço da dor: um fio de cabelo da pessoa amada que se foi, o eco de uma palavra dura, o aroma de um quarto. E é com essas pequenas 'pontadas' que vamos nos acostumando e aceitando como parte natural de nossa existência; até um momento que não incomoda mais. Seja porque não se dê mais tanta importância a essas dorzinhas, seja porque elas provocaram o crescimento de uma couraça um pouco mais resistente ao redor de seus alvos; que será cada vez mais grossa a medida que aparecerem novas dores, novas fugas para um lugar chamado tempo, novos pedaços da dor...
Passamos a ser mais confiantes até. Nesse sentido, o tempo é pai porque põe a mão no nosso ombro quando a gente vai contar o que passou durante o tempo; um agasalho aconchegante essa mão; uma roupa nova indicando a ascensão a partir de um ritual sofrido. Parece que o tempo nos dá segurança para deixar escapar um 'já passou, está tudo bem agora' ou um 'já virei essa página'. E quem não ficou lá tempo suficiente, não pode dizer nada disso. Quer dizer, até pode, mas correrá o risco de ver sua dor diminuída aos olhos dos outros que usarão desse argumento cruel para justificar o rápido retorno à normalidade. Ninguém gosta de ver sua dor diminuída, muito menos comparada. Esse medo pode até mesmo levar a uma extensão da dor, além do necessário; atrasos inconscientes.
Seja como for, a terra do tempo pelo menos tem chão. Você pode se sentir perdido no meio de tanto nada e tanto tudo que passa por ali. Mas quando quiser sentir o chão, vai poder pisar. E se sua dor for tão profunda que te induza a um estado quase que inconsciente, se prepare: Os fogos de artifício que marcam o recomeço da contagem do tempo vão te acordar.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Irreversível

É indizível, tá bem?!
Esse mal estar, essa culpa, esse arrependimento todo. Embora essa seja a situação ideal para traduzir tudo em palavras, eu não consigo. Vim aqui querendo muito.
Posso dizer uma coisa: é como se eu estivesse diante de um jarro caro e exótico, difícil de se achar e, então, por descuido, o quebrasse, provocasse um arranhão, que seja. Não é mais o mesmo jarro; pra qualquer outro que olhe talvez seja; até a própria percepção que o jarro tem de si pode ser a mesma. O fato é que ele está arranhado e eu não tenho meios de consertar. Já consertei outros antes, mas esse era único.
Não posso olhar para aquela pontinha quebrada: eu choro. E não é silencioso; é doído, é incompreensível, afinal, que tenho eu com o pobre jarro?
É que não solto o pedaço que ficou comigo. Mesmo que entre na minha carne, não solto e não entendo.
Só dói. Não há muito que dizer além disso.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O tempo vem.

Com a cara igual à da minha roupa: cinza.
Os olhos que vejo são pretos, vivos. Sua garota é vermelha, branca.
Nuvem de cigarro e mesmo assim, eu os enxergo rindo, plenos, suficientes.
Caminho de um lado pra outro, ando em círculos, dou voltas ao redor da gente que se amontoa.
Mesmo com tanta gente espalhada, eu só os vejo (os olhos): negros, vivos.
Me pego sem limites! O do compromisso do negro com a vermelha, branca. Não respeito na minha cabeça.
No último Natal era eu, ela.
Soltaram-me, enfim. Quase desumano vê-lo humano, amando, posando de fiel.
Um paradoxo encarnado. Porque canta que é "navio no mar sem porto e sem dono"; uma "ilha deserta onde ninguém quer chegar". E anda com ela, dá um nó com as mãos dos dois, faz as vontades dela que é vermelha, branca.
Quis sair mas estava sem as chaves de casa. Voltei e vi, bem negros, vivos: os olhos.

Mergulho

E eu fiquei de todas as cores, a todas distâncias possíveis do chão (inclusive dentro dele).
E eu pulsei em todas as frequências. As grandes artérias esmurram meu pescoço, pulsos, vísceras; se debatem. O rosto ferve, o suor borbulha na minha superfície. Os músculos congelam.
É assim que é estar de cara limpa e corpo presente no meio do mundo. De frente pro mundo e seus absurdos e suas concretudes, suas pessoas.
Por algumas horas estive sem capa, cobertor, teto de gesso, paredes e portas para me abraçarem. Estive lá fóra.
Fato que pode ter me mudado em alguma medida. Fato que poderia me forçar para dentro de mim mais ainda.
Penso em não ir, embora não saiba onde exatamente ficar. Depois que chegar da rua, da aventura, do dever... onde recostar?
Não quero travesseiros cheios de penas de gansos mágicos ou algodão doce enfeitiçado nem folhas de uma floresta encantada.
Acho que hoje eu vou dormir sem travesseiro.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Vinicius

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar seus olhos que são doces...
[...]
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
E eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos

V. de Morais


Comentário: Se já disseram antes, pra que acrescentar? Que venha o velho. 

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Ai.

Dividida entre estar com você, no escuro, ou seguir em direção ao Sol, a quem devo a vida.
Seria melhor se viesse para cá, afinal, você é tão humano quanto eu e, ambos precisamos de luz, água e pão. No escuro onde você está não existe nada disso, você não sente?
E seus amigos? E suas amantes? E sua paixão? Um passo grande demais é abandonar. Eu sei. Passo por isso.
Eu poderia ficar um pouco na noite com você, quando pedisse, quisesse, chamasse. De dia eu voltava e esquecia. Mas não foi concedido a ninguém ter duas faces, duas identidades, dois corações: um pra se perder, outro pra se salvar. Agir como se isso fosse possível é colocar a vida em cheque, é brincar com as leis, é arriscado, ou pior, é certamente desastroso.


Digo assim porque admito que não sou totalmente invulnerável a seu semblante esquadrinhador, o sorriso de canto de boca, e a voz que te obedece como se fosse sua escrava.
Escrevo para acabar de uma vez por todas com os resquícios e memórias que de vez em quando me capturam e maltratam.
Mas não acredito muito que assim será.
Se pelo menos houvesse algo palpável o qual eu pudesse quebrar ou cortar para então sumir... mas não há.
Está tudo aqui: dentro.
Temo não conseguir encará-lo quando o ver.
Temo.
Tremo.
Uma ampulheta derramando areia pra me avisar que está quase no fim, ajudaria.
Só faço pedir.
Que acabe logo, logo. Não é possível... Não deve ser.

Casas

Você deve rir-se da situação de quem, como eu, vive partido. Um duelo sem fim entre bem e mal: dores de cabeça. Você está livre, encontrou um meio-termo e está muito bem, obrigado. Nenhum peso nos ombros, nenhuma fraqueza inexplicável, nenhum desejo que te coma.
Resta-me esperar pelo último dia de nossas vidas, ou da sua, ou da minha. Em casos extremos a verdade aparece; a mentira não aprendeu a ficar de pé, só rasteja.
E se você ficar pra sempre aí? Pra sempre pensando estar certo, ou "_não existe isso de certo!", você diria.
Diria também que isso de 'pra sempre' não existe, tudo pode mudar a qualquer momento por qualquer motivo. Basta sair de casa.
Você saiu de casa. Não quer voltar. Lá não funciona pra você. Aliás, seu lá é meu cá hoje em dia. O que deu errado? Por que não funciona mais? Como você vive longe? Como você pôde adotar outra casa? Por que?
E uma angústia louca por não entender, por que estou angustiada?
Não sou sua mãe nem sua amiga de infância que te viram ir embóra, se afastando, um passo de cada vez. Elas que talvez doam por você não estar mais.
Quando não se sabe como agir, chora. Coisa de mulher. Mulher como eu, não todas. Existem as de fibra, as guerreiras. Mas eu desconheço o inimigo, não sou boa estrategista; sou de pó.
Tem tanta coisa colorida aí fóra, não é? Tantas luzes, tantos sons... Deve ser isso o que te fascina. Ou será a liberdade para sentir ventos de qualquer lugar no rosto, conhecer corpos e rostos diferentes, rir descontroladamente sob o efeito de alguma mágica...


É como se fosse uma missão; trazê-lo de volta.
Mas você não quer vir...


Choro.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Azul

E quando você passeia em mim, é como se fosse uma descoberta, algo inédito, inusitado. É uma viagem calma, uma música lenta, a seiva que brota na floresta.
Eu querendo ver as roupas caírem descosturadas; as peles a se fundirem, quentes.
Corpos flutuando; pra quem qualquer superfície é grama, qualquer teto é céu, qualquer brisa dá arrepio: o meu termina no seu.
Como flutuam, esquecemos dos nós, dos embaraços, dos soluços...
Fiquemos tranquilos, nos embalando, nos ninando, que hoje o dia está lindo demais!

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

gota dagua

Precisando descompressar meu coração:
Olhar para as minhas raízes, que estão cada dia mais distantes enquanto cresço, e ter que receber toda essa seiva suja, bruta, ácida, mortal...
um balão de ar que enche-se toda vez que seus discursos invadem meus ouvidos, minha cabeça pesa; não  posso explodir.
e eu ali do alto, enchergando como era bonito o jardim
como era bonito, meu Deus!
o que aconteceu de uns metros pra cá? Quem trouxe a areia do deserto? Quem estragou meu jardim? Por que não sinto borboletas, nem lagartas nas folhagens, não ouço pássaros?
Só uma pequena rosa insiste em se exibir em meio à paisagem desoladora: existe uma rosa! Ela parece ser doce, macia, saudável... Ela é a força da vida.
E minhas raízes secas e famintas bebem a água da rosa; da mesma água. Parecem fazer parte de troncos distintos mas nutrem o mesmo corpo. Não sabem que, por serem tão grandes e velhas, não podem anularem-se ou eu seco. Vou ficar apenas com a metade de uma seiva que não deixará de ser bruta nem suja nem ácida.
Estendo meus braços o máximo que posso para alcançar o lago e o trago para perto, mas as raízes estão cegas, insensíveis... Não sentem o frescor do líquido correndo por entre minhas fendas e dobras. Meu alívio, meu bálsamo: cura.
Não quero fotografias do que restou do jardim, lá atrás. Quero dar passagem para a água que parece viva; as raízes dividem o cenário em dois: Forma-se uma muralha e a água não pode avançar.
O jardim cresce em um ponto que só eu consigo ver; o lado deles está seco, triste, morto.
Tento explicar, pedir que me ajudem a derrubar o muro mas ele não entendem a língua que eu aprendi e eu não lembro qual era a língua que eu costumava usar antes. Em alguns momentos até, fico muda; em outras, pronuncio algo que remeta a amor e o ar que sái da minha boca voa pra longe... eu espero o vento mudar de direção e revirar a terra; soprar no fundo da terra onde as raízes esconderam o ouro.
Preciso aguentar mais um pouco. Sinto um milagre a caminho. Daqui a pouco, talvez, a muralha se rompa, então, tudo será irrigado de novo e um jardim novo em folha vai...
E não haverá mais pedras nem buracos ou armadilhas.
Um relevo plano e verde; montanhas e nenhum vale grande demais.

Vejo o céu que, ao contrário do jardim, não muda. Continua perfeitamente inteiro e seguro de sua grandeza. Cobre a todos e às vezes chora. Peço para o Dono que nos veja; que nos ajude.

Já não vejo porque mantenho os olhos fechados em oração.
Eu espero você se juntar a mim. E seremos um lindo jardim novamente.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A ira dos anjos II

São Tomás de Aquino tinha dito que quando se atinge o ponto mais alto do pecado, tudo deixa de ter importância. Jennifer perguntava a si própria se o mesmo se passaria em relação ao amor. Tinha consciência de que aquilo que fizera fora, em parte, devido a uma profunda solidão.

Sidney Sheldon

A ira dos anjos

Jennifer olhou para Adam, concentrado no problema de palavras cruzadas e pensou: “Reza por mim." Sabia que estava a fazer uma coisa errada. Sabia que aquilo não podia durar para sempre. E, no entanto, nunca experimentara tanta felicidade, tanta euforia. Os apaixonados viviam num mundo especial, onde todos os sentimentos eram mais profundos, e a alegria que Jennifer sentia agora junto de Adam era digna de qualquer preço que ela tivesse de pagar mais tarde. E sabia que ia ter de o pagar.
[...]
Agora, o seu tempo era contado pelos minutos que podia passar com Adam. Pensava nele quando estava com ele, e pensava nele quando estava longe dele.
Jennifer estava dominada por emoções que até aí desconhecera existirem nela. Nunca imaginara que pudesse ser caseira, mas queria fazer tudo para Adam. Queria cozinhar para ele, limpar para ele, preparar-lhe a roupa de manhã. Tomar conta dele.
Ela ficava deitada ao lado dele, vendo-o adormecer, e tentava permanecer acordada o máximo de tempo possível, com medo de perder um único momento que fosse do tempo precioso que passavam juntos. Por fim, quando Jennifer já não conseguia manter os olhos abertos, aninhava-se nos braços de Adam e adormecia, satisfeita e confiante. A insônia que durante tanto tempo atormentara Jennifer tinha-se dissipado. Os demônios noturnos que a haviam torturado tinham desaparecido.
Quando se enroscava entre os braços de Adam, sentia-se imediatamente em paz.
Gostava de andar pelo apartamento com as camisas de Adam vestidas e, à noite, usava o casaco de pijama dele. Se ainda estava na cama quando ele saía, de manhã, Jennifer rebolava para o outro lado da cama. Amava o odor morno dele.
Parecia que todas as canções de amor que ouvia tinham sido escritas para Adam e para ela, e Jennifer pensava: “Noel Coward tinha razão. É surpreendente o modo como a música sem qualidade consegue ser poderosa."

[...]Desejava que aquilo que possuíam nunca acabasse. Mas sabia que havia de acabar.



Sidney Sheldon

Eu chorei lendo isso, juro!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Oráculo

Querendo ver-me logo livre desses ares adolescentes. Quero o impulso que me lance para fóra daqui: deste mesmo lugar, do mesmo.
Despir-me de todas as paixões que tive até agora. Acordar limpa, virgem, ingênua, inabitada.
Ser meio fria, meio sem emoção, meio sem gosto.
Procurando decisões sérias a tomar. Um cara mais velho, um encantamento verdadeiro e duradouro:
O amor dos velhos.
Trocar suor por dinheiro; tempo por dinheiro; liberdade por dinheiro; pra comprar a 'nossa' casa e deixar algum patrimônio pros filhos.
Coisas sérias, entende?
Nada mais dessas bobagens de provas, de brigas de irmãs, de bolo de aniversário, sorvete...
Cores neutras e um corte discreto, sem ousar pra não errar.
Palavras firmes, posicionamento político bem definido, defensora de uma linha ideológica realista que admite não haver paz nem felicidade para todos, salto alto grosso e pernas feitas.
Parece mais um filme do que minha projeção de futuro.
Continuo, quem sabe?

quarta-feira, 23 de junho de 2010

É certo:

É preciso pontuar o amor que se pretende perfeito: o nosso primeiro amor, imperfeito em suas medidas. É preciso que nele falte algo.
“onde há falta, há desejo.”
O sujeito desejante e bem instruído na frustração, liberdade e responsabilidade pode se tornar um indivíduo que respeita o outro, as convenções, os contratos, os costumes, a lei...

Fonte: Papo de advogada.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Bandeira Branca

Querendo dizer algo de denso. A cabeça já cheia e zonza... Quero cair.
Venho pra te fazer sentir culpa. 
Por não querer; não gritar meu nome; pelo meu desequilíbrio.
Culpado por levar esses olhos tristes no rosto; esse porte largo; essa voz chorosa; esse peito desprotegido.
É tudo o que eu já disse antes.
Porém, não é inocente. Não veio me roubar de mim, da minha melancolia, da grande invenção que é onde mora minha mente. Onde descanso e tento entender quando que deixei de saber exatamente o próximo passo. Quando perdi a alegria que o otimismo dá.
Otimista quanto à um desejo, um capricho concebido. Quando foi, volta?
Desculpa por não dizer. 
Mas eu não perdôo por não ter perguntado, nem se importado.
Equivocada. 
Todo o tempo. Os sonhos não páram de circular em minha mente.
Eles fingem acontecer. Mas é só mentira.
Os dias emendam-se e é tudo um eterno continuar: o prosseguimento da vida sua, eu sem fazer parte de nenhuma. Nem da minha.
Sei que isso não é motivo pra birra ou berro ou choro ou ódio. É só motivo pra silêncio.
Ando em retirada pacífica. 
Sem enterrar nenhuma mina explosiva em seu campo, nem armadilhas, nem saudades.
Não saio de mãos vazias:
Tomei seus olhos tristes; o peito desprotegido; os passos soltos. São meus agora.

sábado, 19 de junho de 2010

Oportuno

"Cerremos esta porta.
Devagar, devagar, as roupas caiam
Como de si mesmos se despiam deuses,
E nós o somos, por tão humanos sermos.
É quanto nos foi dado: nada.
Não digamos palavras, suspiremos apenas
Porque o tempo nos olha.
Alguém terá criado antes de ti o sol,
E a lua, e o cometa, o negro espaço,
As estrelas infinitas.
Se juntos, que faremos? O mundo seja,
Como um barco no mar, ou pão na mesa,
Ou rumoroso leito.
Não se afastou o tempo. Assiste e quer.
É já pergunta o seu olhar agudo
À primeira palavra que dizemos:
Tudo".
In Poesía completa, Alfaguara, pp. 636-637
Samarago

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Impressões



Penso ser melhor agora.
Que não me preocupo com o que estará fazendo no outro dia de manhã ou, na noite seguinte, quem abraçará.
Tudo que existe de substância, de concretude, de palpável, estava ali. Por que me perturbaria?
A dúvida é só uma. Continuo só?
Porém, não me perturbo.
Bem melhor.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Desencaixotando.

Um post que  nunca publiquei, até agora:

____________________________________________________________________


Você parece buscar a perfeição. Algo de divino... maravilhas da criação.

Eu procuro a cicatriz, a falta de simetria, os relevos da pele, as marcas das paixões, das rivalidades, do tempo.

As falhas, as gafes,

Ser humano me comove porque isso implica assumir a herança de genes imperfeitos, é se assumir resultado de uma combinação improvável ou até estranha. Ser brasileiro, então, é mais encantador ainda!

É ter olhos de negra, boca de índia, quadris de européia, nariz dos outros três juntos.

A pele macia, os cabelos escuros e sadios, os músculos firmes e bem nutridos, os traços harmoniosos são artigos de luxo importado que um punhado de moças possui. E, ao apreciar toda essa conspiração da natureza em favor de poucas (e dos nossos olhos), eu vejo um molde, melhor, matéria-prima: uma boa peça de peruca, boas medidas para a máscara e a fantasia, uma boa textura de pele para ser imitada pelos cosméticos, e é isso.

Curto o cheiro de suor, o cheiro dos lubrificantes naturais, do hálito depois de comer a fruta.

Sentir-me gente, que faz sujeira, que depende de água, que toma banho de lama, que precisa de sexo, que gosta de açúcar.

Desse jeito não dói nem destrói ninguém porque desse jeito é que é natural.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

De meia em meia... hora!

Um momento reservado aos olhos. Dê aos nosso olhos, um momento a sós.
Permita que se mergulhem, que se descubram, que se espantem.
Um momento peço também para o riso. Aquele mesmo... o riso sorrido por nada nem por ninguém. Um riso seu é o que quero guardar.


E o medo, hein? E a insegurança normal de toda garota: "O que ele vai achar de mim". 
E a cautela de todo homem prudente: "Será que posso andar por aqui?"
Porque somos isso mesmo. Uma garota normal e um homem prudente.
Algo em comum? Algo que nos una?
Devaneios sobre a vida. Sobre os sentidos e gostos e vivências. Mais do homem que da garota, como era de se esperar. Porém, deixam-se surpreender. 
Não que tenham ouvido teorias geniais ou fora do comum. Surpreendem-se com o papo leve, com a vontade de acabar com os roteiros que ordenam a aproximação dos seres sociais. Acabar com a cara de estranho que o outro insiste em vestir. Mostrar logo de que se é feito.


Eu sou de carne. Estou nessa com você se não quiser ir sozinho.
Quero com você rir da espinha que nasceu na ponta do meu nariz hoje de manhã. Quero que me mostre o furo na sua meia que fez seu pé ficar engraçado. Quero que me conte qual foi a maior gafe que você já cometeu.
Quero ser humana, com você, entende? E depois anjo... Mas agora, só podemos ser assim. E então, tudo bem pra você?
Venha "sem rodeios" ou cerimônias ou qualquer coisa que lhe pareça inútil.
Sou eu quem não quer ser a inútil aqui.
Então, nossa conversa será sobre isso: Você precisa de alguém? Precisa?
Porque, senão, eu guardo minha roupa vermelha, desbroto a flor no cabelo e ando.
Abro a porta e fecho pra sair.
Abro a porta e fecho pra entrar.
E só.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Me dedique.

Não é pra ser nada de mais.
É só uma conversa.
Um tempo dado pra mim. Um presente seu pra mim: Mente tranquila e quase vazia olhando pra mim. Dividindo espaço com a minha mente.
Piscar de olhos que saiam faíscas. Não é nada de mais. Nada de incêndios nem de alardes. Não precisa pular da janela, nem se enrolar em cobertores. Só quero as queimaduras finas das faíscas...
Um espaço pra que eu possa viver os restinhos de adolescências em mim. Empresta um pouco sua mão. Toca com ela o meu rosto. Mude a temperatura. Ruborize.
Empresta um pouco do seu peito, põe minha cabeça ali. Me faça chorar só pra que eu experimente do seu ombro.
Falta pouco pra eu virar adulta, eu sei. Eu quero.
Não precisa passar por isso comigo.
Só esteja lá minutos antes e minutos depois.
Eu passo o 'durante' sozinha.
Vai ser rápido assim, eu garanto.
Fica aí pra me dar uma carona. Tenha calma, não quero atrapalhar.
Também não quero que vá, confuso.
Fique até o fim.
Até que chegue ao fim, que o pulso normalize, que a temperatura estabilize, que eu toque os pés no chão novamente.
Eu teço um casaco de palavras que nunca vou dar.
É muito cheio de buracos, eu vejo.
É assim com qualquer sonho, qualquer memória, qualquer desejo.
Nunca estarão completos.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Céu, Lua, Sonho Esquisito

Eu te namoro, não sabia?
Todos os dias nos encontramos e conversamos com os olhos e com as mãos.
Acaricio-lhe os cabelos e o pescoço. Você sente-se seguro e aconchegado.
Enfim, achaste um porto seguro! Uma âncora! uma companheira de viagem!
Pra todos os lugares nós seguimos juntos.
Precisas de mim, e sabes disso.
Pois agora mesmo vou lhe encontrar.
Contemplar suas marcas  de expressão como quem contempla as reentrâncias na superfície da Lua.
Ver-te brilhar como a Lua.
Um dia iremos juntos à Lua.
Mas, por enquanto, deixa eu te encontrar.
Em algum lugar do meu inconsciente.
De onde partem os sonhos.
É só ali que nos encontramos.
Por enquanto.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Tu és o Deus da minha salvação

Contar pra qualquer um exigiria uma explicação acompanhada de uma longa história.
Eu não gosto de histórias. As da Bíblia, as dos meus pais, pessoas de existência relevante... É só o que me é precioso. Mas não a minha.
Então todos se viram para ver quem é o visitante.
Agora que todo mundo já foi, me conta: Foi você quem jogou um ácido sobre meu corpo? Porque ardeu.
Primeiro, as maçãs  do rosto, depois o peito, as costas... Daqui a pouco pagava por uma desculpa para ir embora. Não precisava. Meu corpo frágil me denunciava. Eu queria poder me dissolver no ar.
Tenho tendência de desenvolver qualquer explanação sobre mim com 'talvezes'. Não gosto disso também.
Fingi que era um vulto, uma miragem, uma ilusão, não sei. Seus olhos continuavam lá: Vivos, fixos, fatais.
Da sua respiração saia o ar que me roubou um dia... Respira tranquilo, nada acontece.
Nada acontece.
Nada acontece.
É por isso que jogo objetos com força no chão, corro pro quarto e tento pedir ajuda ao meu inconsciente.
Peço: Sonhe.
Ouço: Engula o que é real.
Peço: Me salve.
Ouço: Encare.
Digo que não entendo e venho aqui contar um nada.


Desisto de mim. Me rendo ao Criador.
Meu Paizinho que está em todos os lugares da Terra nos olhando... Ouvidos abertos para o desabafo, Braços preparados para o socorro, Palavras doces e leves... O sussurro que só percebo quando fico quieta.
Quero ficar quieta. Que minha cabeça páre com tanta turbulência.
Eu quero ficar em paz em meu Senhor.
Deus, me ajuda.
Quero lembrar daquilo que me dá esperança quando eu estiver confusa assim. Lembrar que existe um Senhor de Tudo.
Seja  Senhor da minha vida.
Somente Tu, Pai. Somente Tu.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Em que posso ajudar?

_Uma alma simples e uma água sem gás, por favor.
_Como assim de que tipo?Do tipo incolor, inodora, insípida, etc, etc. 
_Ah, a alma?
_Do tipo incolor, inodora, insípida, etc, etc. Sem sal, sem açúcar, sem gordura, sem carboidrato, sem vitamina nem nenhum desses elementos nutritivos. Tô precisando emagrecer.
_É assim: Tirar o peso da existência, da vida, do mundo, dos outros, entende? Parar com isso de tridimensões, pés distantes do chão, descompasso, essas coisas.
_Porque esse é o meu plano B, ora. É o plano de fuga.
_Se preocupa não. Existem coisas bonitas por aqui também. Eu vou aprender a nadar no raso, pensar menos. Isso de poesias/rimas/canções não levaram ninguém a nenhum lugar.
_Eu tenho certeza. Se eu estiver errada, me explica porque o coração não fica em cima, no lugar do cérebro? Então, vou seguir quem estiver por cima da situação. Só crer no que ver, talvez no que tocar. Mas quem manda mesmo é esse emaranhado de miolos e nervos aqui. É nisso que confio.
_Ei, anda logo com meu pedido. Tô com sede.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Uma outra história.

Que bom seria se eu tivesse vários corpos à disposição para poder zanzar por aí cada dia por um canto diferente. Como se eles fossem fantasias enfeitiçadas.
Cada corpo teria amigos distintos, personalidade definida e atrativa, um grande sonho e uma maneira peculiar de  confessar os sentimentos.
Pra cada coração, vários amores de todas as espécies. 
Apesar de compartilharem da mesma mãe, esses meus corpos não seriam irmãos. Estariam sob o domínio da minha mente e, todas as noites, sonhariam os mesmos sonhos, porém, os sonhos serão extensos pra caber as imagens dos desejos de cada um. Pois seria nos sonhos que eu, a mente controladora, me sentiria completa. Daí minha ambição estaria satisfeita: não falta ser ninguém.
Poder ser todos. Poder ser! Em um corpo um vagabundo, no outro uma amante exímia conhecedora dos jogos do amor, o outro é um intelectual sem partido que contribui para a democracia, o outro é viajante, e tem também o velho que nunca morre. Esses são só exemplares da vasta coleção de pessoas que eu seria. Tudo pra não ser eu.
Pra não me sentir tão boba por não conseguir "ir à igreja e ao carnaval com a mesma devoção". Pra não estar sentindo tão decepcionada comigo mesma. Pra não sentir o fracasso de não ser sempre radiante, sempre bela e leve.
E, depois de experimentar as várias vidas que teria, talvez eu quisesse guardá-las todas em um baú ou em um sarcófago, pra mostrar respeito. É claro que não os enterraria... por desconhecer minhas futuras manias e planos de fuga (apenas por isso). 
Então quem sabe eu viria com alguma resposta. Uma bússola seria o ideal. Ou um cristal-guia embutido no peito. É que eu necessito descobrir como é que a gente faz pra ser querido, amado, indispensável até. Como cativar corações impossíveis, como ajudar um triste a ser feliz. Por esse último segredo eu cumpriria uma promessa, ou duas. Ficaria a critério do guardião dos segredos da existência humana.
Agora eu me sinto sem pernas nem dentes nem unhas. Imóvel e impossibilitada. Um parasita, sim. Dos corpos que eu escolho, na vida real, pra sugar um pouco de força, de piedade.
Por enquanto eu só quero deixar o nó na garganta ficar bem apertado. Perder a consciência. Desligar por um tempo. É. Eu quero desligar.



sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Motim

Aviso: Trata-se de uma tentativa frustrada e  mal-acabada de traduzir o que balbucia um coração. Tenha sempre em mente que é impossível fugir do indizível.


Ainda não tinha experimentado. Por mais absurdo que pareça, o céu foi convertido em outro quando você me apontou as constelações. 
É absurdo como, mais uma vez, você sái e minhas pernas imploram por teu rastro. Querem que eu as leve pra perto das suas... perto o suficiente para um movimento de luta na qual não importa quem imobiliza o adversário mas, sim, o que vem depois.
Só agora percebo que ecoam gemidos de sob os cabelos reclamando hálito quente, mãos firmes, um afago doce até. Os olhos resolveram ter idéia fixa e em cada canto imprimem um vulto seu.
Da pele emergem placas de ardor por todos os lados reivindicando um só remédio.
Desaprendi as táticas de repressão e auto controle ao constatar meu corpo assim rebelde e cheio de exigências. Ou, por pura displicência, deixei as armas que tinha se desvencilharem dos meu dedos.
Os golpes que são desferidos dentro me machucam. Quão paradoxal isso consegue ser?
Parte de mim é cúmplice do alvoroço. Financia-o e põe fogo. Se assim não o fosse, teria usado do poder descrito pelas ciências da mente humana concentrando-me em calar esses rumores e ameaças.
E você alheio ao rebuliço.
Não sabe o poder que tem.
Carrega consigo a essência que embebeda.
Leva na garganta a voz que seduz e no peito, uma granada.
Sem cuidado, se espalha por aí.
Meu Deus! Daí, então, o que me restará? Se é impossível aprisionar algo seu pra por debaixo de meu travesseiro, diga, o que resta?
Antes possua e deixe que suspire. 
Não, um suspiro seu eu não posso aguentar.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Todo mundo merece um dia perfeito.

Talvez esse texto seja melhor compreendido se a leitura for acompanhada dessa música (é só por causa da melodia mesmo, não precisa saber inglês):

Coldplay - Strawberry Swing .mp3
Found at bee mp3 search engine


[...]essa vontade de beber todo o ar do mundo pra manter o mundo vivo e nadando em meus líquidos, voando em meus pulmões.
Quero as flores.
Quero os esquilos, os lagos e as águas-vivas.
Quero os coloridos, os venenosos.
Quero ser a mãe de todos eles: dos índios, dos hindus, dos esquimós.
Quero suportar a todos com meus ossos e alimentá-los com meu sangue.
Eu os quero protegidos, aconchegados, saciados.
Então todos usufruiriam das belezas que reuní; eu mesma as escolhi.
Um pequeno Éden para abrigar as almas aflitas, famintas, desesperadas.
Todas as vítimas de guerra. As vítimas da fúria da natureza, da fúria dos vizinhos e colegas, da ruindade e indiferença da humanidade. Todos que se sentirem esquecidos e abandonados. Os invisíveis, venham!
Eu tenho abrigo para todos. Onde o sol não queima e o vento não congela esses corpos já sofridos.
E eu tenho música. Para embalar o sono dos pequeninos mutilados, explorados, chorosos. Para acompanhar os jovens em suas trilhas pelo novo lar. Para curar o silêncio de morte que consome os velhos.
São livres para movimentarem seus músculos no ritmo da música. Escorregarem as mãos umas sobre as outras até sentir um aperto firme. Uma imensa roda se formará. Um círculo humano, colorido, risonho. Farão suas preces, entoarão seus cânticos, pronunciarão seus mantras até o cansaço pra depois se atirarem à grama verde e bem regada.
Podem dormir e descansar, meus filhos! Não se esqueçam que a verdade mora aqui. Do outro lado, onde há tristeza e injustiça, é só um sonho ruim. Voltem quando preciso. Eu os receberei com um abraço e um refúgio.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Um filme pelos meus olhos.

PS: Sobre "Blindness" (ou "Ensaio sobre a cegueira"), filme de Fernando Meirelles (2008), adaptado do livro de mesmo nome escrito pelo Nobel José Saramago, em 1995:


Mais que a valentia da mulher do médico, a tirania reproduzida entre as paredes do "depósito humano" pelo rei da Ala 3 e sustentada pelo cego de nascença, a covardia de um grupo de homens ao propor que o sexo fosse moeda de troca por comida, e tantas outras cenas que monopolizam a atenção de grande parte dos expectadores, a leitura do velho negro em relação a tudo que se passava à sua volta foi o que mais me emocionou. Primeiro que a experiência e segurança das pessoas que vivem neste mundo há mais de meio século, me toca tremendamente. Quem pode ousar contestá-los quando em um debate sobre os fenômenos de ação e reação dos quais nem um ser vivo pode escapar?
(Segundo em diante seguem sem marcação).
Pois bem, esse velho havia feito do banheiro a sua moradia, mas ele tinha um rádio. Depois que deram-lhe um lugar no já lotado "dormitório", sempre sorridente, ele transmitiu as informações dos noticiários que ouviu e, quando terminou, percebeu que um silêncio de morte pairava ali. Todos haviam se aglomerado e pareciam esperar. Esperavam, talvez, que seus corpos mergulhassem no "mar de brancura": a única imagem que podiam contemplar através dos olhos súbita e inexplicavelmente cegos. Esperavam as mudanças seguintes à perca de um dos sentidos. Mudanças que exigiam dor e auto negação.
O velho, porém, parecia deliciar-se naquela atmosfera densa e selvagem que induzia todos a se prostrarem diante das próprias fragilidades e instintos. Sem noção do tempo, sentia-se infinito. Uma eternidade caminhando sobre o "mar de leite".
E, quando se caminha sobre o mar, a jornada é igualmente infinita.
Ele sabia que agora que não havia espaço para divisões segundo a classe social, a etnia, o credo ou a beleza. A igualdade de condições tão duras impostas indistintamente os nivelava e os resumia a animais lutando pela sobrevivência. Se não por esperança de um futuro melhor, lutavam simplesmente porque é isso que sempre fizeram os animais em toda a história de sua existência, logo, atendiam a um chamado visceral e primitivo.
Ele decidiu que fazia-se necessário gastar a pouca bateria do seu radinho de mão para embalar aqueles seres tão assustados. A música vira a protagonista do momento, o único remédio que o acaso lhes cedeu. A ala toda era música, os pés registravam o ritmo e, durante aqueles minutos, pareceu ser bom ter apenas as lembranças e fantasias como referência da realidade.
Alguns não se importavam em cobrir suas "vergonhas". Usar roupas seria mesmo a última tentativa de se convencerem civilizados quando não há comida, água potável nem sabonete suficientes.
Quanto ao velho, ele escolheu despir o coração. Seu olhar gentil conquistado pela idade agora traduzia-se na fala mansa à beira de uma fogueira declarando seus desejos à moça. Era o que desejava sua alma.
Até que um deles voltou a enxergar. O fim de um flagelo. Enfim, as poucos a vida de antes seria reconquistada e retornariam à normalidade morna e farta. O trabalho, o contato com os familiares e amigos, a retomada da perseguição aos sonhos... seria o paraíso. Donos de uma gratidão inimitável à liberdade, se destacariam em qualquer grupo com qual escolhessem conviver: são imunes às pequenas agruras do cotidiano e desequilíbrios emocionais que afetam os relacionamentos da nossa era. Superaram desafios infinitamente maiores, sentiram a humilhação no seu sentido mais cru.
Talvez usem dessa nova compreensão para tomar as dores dos tantos oprimidos (semelhante ao que eles foram) espalhados pelos continentes afora. Ou talvez não queiram mais reviver as angústias e a impotência diante de forças implacáveis genericamente nomeadas como 'Corporações financeiras', 'Estado Capitalista', 'Burguesia', 'Globalização', etc.
De qualquer maneira, a história continuará se repetindo em algum lugar do globo. Essa era a condição. E nós aceitamos.

Para os ex-cegos, cada estilhaço voltaria ao seu lugar para recompor o grande quebra-cabeça da "ordem" universal.
Não para o velho negro que voltou a ser refém de seu corpo antigo e perecível.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Que alguém cuide de você.

Atira o corpo dormente na cama. Faz o que gosta: Lava o rosto e umedece os lábios com as gotas transparentes e salgadas, presente dos olhos para acalentar o coração. Sem histeria ou desespero... já disse: é um presente mas também lembrança.
Lembra que não é preciso acertar sempre nem se desvendar por completo. Sempre haverá algo a ser resolvido mais a frente; por isso, caminha!
Quase pede perdão (a rádio lhe despertou a sensibilidade).
Espera. Não quer mais isso de precipitações. Mas, e se hoje for o dia ideal para algo deliciosamente inesperado (vamos lá, você poderia ter criado sua oportunidade)... E se atrás do bosque houver um coração simétrico (mesmo que invertido), e se isso no céu foi provocado por algum sinalizador vindo de trás do bosque? E se ele também quisesse e você simplesmente se nega?
Espera mais um pouco. Vê que não é bem assim, que tem o direito de deixar se dominar por si mesma. Não mata o animal que nela habita e em alguns momentos ele (o dono) agradece por não tê-lo feito... as feras sabem como enlouquecer.
Foi só instinto, nada demais. Nada que possa ser justificado verbalmente. Saiba que qualquer tentativa será uma mentira.
Mas, e quanto ao corpo dormente? Duvido que tenha coragem de negar que (também por instinto) quis ser beijada por todo o comprimento e largura das suas costas. Quis lábios por toda sua extensão. Quis ser qualquer coisa que o enchesse os olhos. Quis ser o bastante... a peça perdida ou o acorde, o arranjo, a frase.
Sem dificuldade, então, seria brinquedo que se perde no ar: uma bolha, talvez? um balão?
Vê no filme a cena de um abraço e chora. Mais outro, chora.
O que isso significa?

domingo, 3 de janeiro de 2010

Tarde como outra.

Vontade de cantarolar uma música no pé do teu ouvido.
Pensando bem, se você estivesse tão perto a ponto de ouvir um cochicho musical, eu não precisaria proferir essa canção que me torra a paciência agora.
"Me telefona. Chama, me chama, me chama, me chama-a-a-a-a-a-a".
Okay. Isso pareceu infantil e imaturo depois de escrito mas, a realidade deve ser encarada de frente. E é só o que eu tenho diante de mim nesse instante: uma tela de computador com umas letrinhas que se movimentam à medida em que pressiono as teclas do teclado. Elas avançam e recuam e avançam até que a mentora do texto se deixa vencer e publica qualquer coisa com a desculpa da espontaneidade.
Já que é pra ser transparente e franca (mesmo que eu corra o risco de parecer boba), vou logo me adiantando e contando o que tem passado pela minha cabeça nos últimos dias.
Por acaso estou de férias e é início de ano.
Fico preocupada ao perceber que todos tem razão: é um período importante. Logo, o Reveillon era pra ter sido importante, ou seja, começo o ano me arrependendo de não ter dado a devida importância à mística transição de um ano para outro. Talvez isso explique em partes, o porquê da onda de mal estar e ressurreição de questões mal resolvidas do ano findo.
As noites foram estonteantemente lindas graças à genialidade do Supremo Criador. Ontem, por exemplo, a lua estava imensa e pendia para a direita do ponto em que eu fixei as vistas. Tão brilhante e mentirosa... Porque ela não brilha coisíssima nenhuma. Se não fosse o sol (que ninguém elogia ao meio dia), não teríamos mais o motivo principal da babação noturna. Quanto à lua, sempre lembram de exaltá-la, não importa a hora. Pronto, agora estou com raiva da lua.
Sou encantada mesmo é pelas nuvens. Elas sim me deixam boquiaberta. Minha paisagem preferida é um céu coberto de nuvens com seus formatos tão diversos que parecem ter sido esculpidos pelas mãos do próprio Todo Poderoso. São esculturas que transmitem emoções e despertam sentimentos e reflexão. Como conseguir tudo isso apenas observando as nuvens? Tente ser só mais um pouquinho alienado. Porém, tão logo lembre, volte ao seu estado natural por mais frio e pessimista que seja. É mais seguro.
Nunca fiquei tão feliz em escrever um texto tão desconexo! Isso significa que eu fugi totalmente do assunto inicial e isso é bom de verdade.
Imagine só, eu aqui pensando em canções que clamam pela presença do objeto desejado e este mesmo objeto em algum outro lugar pensando qualquer coisa que nada tenha a ver com minha humilde existência! Então eu me tornaria mais humilde ainda.
Voltar aos meus afazeres agora.