Precisando descompressar meu coração:
Olhar para as minhas raízes, que estão cada dia mais distantes enquanto cresço, e ter que receber toda essa seiva suja, bruta, ácida, mortal...
um balão de ar que enche-se toda vez que seus discursos invadem meus ouvidos, minha cabeça pesa; não posso explodir.
e eu ali do alto, enchergando como era bonito o jardim
como era bonito, meu Deus!
o que aconteceu de uns metros pra cá? Quem trouxe a areia do deserto? Quem estragou meu jardim? Por que não sinto borboletas, nem lagartas nas folhagens, não ouço pássaros?
Só uma pequena rosa insiste em se exibir em meio à paisagem desoladora: existe uma rosa! Ela parece ser doce, macia, saudável... Ela é a força da vida.
E minhas raízes secas e famintas bebem a água da rosa; da mesma água. Parecem fazer parte de troncos distintos mas nutrem o mesmo corpo. Não sabem que, por serem tão grandes e velhas, não podem anularem-se ou eu seco. Vou ficar apenas com a metade de uma seiva que não deixará de ser bruta nem suja nem ácida.
Estendo meus braços o máximo que posso para alcançar o lago e o trago para perto, mas as raízes estão cegas, insensíveis... Não sentem o frescor do líquido correndo por entre minhas fendas e dobras. Meu alívio, meu bálsamo: cura.
Não quero fotografias do que restou do jardim, lá atrás. Quero dar passagem para a água que parece viva; as raízes dividem o cenário em dois: Forma-se uma muralha e a água não pode avançar.
O jardim cresce em um ponto que só eu consigo ver; o lado deles está seco, triste, morto.
Tento explicar, pedir que me ajudem a derrubar o muro mas ele não entendem a língua que eu aprendi e eu não lembro qual era a língua que eu costumava usar antes. Em alguns momentos até, fico muda; em outras, pronuncio algo que remeta a amor e o ar que sái da minha boca voa pra longe... eu espero o vento mudar de direção e revirar a terra; soprar no fundo da terra onde as raízes esconderam o ouro.
Preciso aguentar mais um pouco. Sinto um milagre a caminho. Daqui a pouco, talvez, a muralha se rompa, então, tudo será irrigado de novo e um jardim novo em folha vai...
E não haverá mais pedras nem buracos ou armadilhas.
Um relevo plano e verde; montanhas e nenhum vale grande demais.
Vejo o céu que, ao contrário do jardim, não muda. Continua perfeitamente inteiro e seguro de sua grandeza. Cobre a todos e às vezes chora. Peço para o Dono que nos veja; que nos ajude.
Já não vejo porque mantenho os olhos fechados em oração.
Eu espero você se juntar a mim. E seremos um lindo jardim novamente.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
A ira dos anjos II
São Tomás de Aquino tinha dito que quando se atinge o ponto mais alto do pecado, tudo deixa de ter importância. Jennifer perguntava a si própria se o mesmo se passaria em relação ao amor. Tinha consciência de que aquilo que fizera fora, em parte, devido a uma profunda solidão.
Sidney Sheldon
Sidney Sheldon
A ira dos anjos
Jennifer olhou para Adam, concentrado no problema de palavras cruzadas e pensou: “Reza por mim." Sabia que estava a fazer uma coisa errada. Sabia que aquilo não podia durar para sempre. E, no entanto, nunca experimentara tanta felicidade, tanta euforia. Os apaixonados viviam num mundo especial, onde todos os sentimentos eram mais profundos, e a alegria que Jennifer sentia agora junto de Adam era digna de qualquer preço que ela tivesse de pagar mais tarde. E sabia que ia ter de o pagar.
[...]
Agora, o seu tempo era contado pelos minutos que podia passar com Adam. Pensava nele quando estava com ele, e pensava nele quando estava longe dele.
Jennifer estava dominada por emoções que até aí desconhecera existirem nela. Nunca imaginara que pudesse ser caseira, mas queria fazer tudo para Adam. Queria cozinhar para ele, limpar para ele, preparar-lhe a roupa de manhã. Tomar conta dele.
Ela ficava deitada ao lado dele, vendo-o adormecer, e tentava permanecer acordada o máximo de tempo possível, com medo de perder um único momento que fosse do tempo precioso que passavam juntos. Por fim, quando Jennifer já não conseguia manter os olhos abertos, aninhava-se nos braços de Adam e adormecia, satisfeita e confiante. A insônia que durante tanto tempo atormentara Jennifer tinha-se dissipado. Os demônios noturnos que a haviam torturado tinham desaparecido.
Quando se enroscava entre os braços de Adam, sentia-se imediatamente em paz.
Gostava de andar pelo apartamento com as camisas de Adam vestidas e, à noite, usava o casaco de pijama dele. Se ainda estava na cama quando ele saía, de manhã, Jennifer rebolava para o outro lado da cama. Amava o odor morno dele.
Parecia que todas as canções de amor que ouvia tinham sido escritas para Adam e para ela, e Jennifer pensava: “Noel Coward tinha razão. É surpreendente o modo como a música sem qualidade consegue ser poderosa."
[...]Desejava que aquilo que possuíam nunca acabasse. Mas sabia que havia de acabar.
Sidney Sheldon
Eu chorei lendo isso, juro!
[...]
Agora, o seu tempo era contado pelos minutos que podia passar com Adam. Pensava nele quando estava com ele, e pensava nele quando estava longe dele.
Jennifer estava dominada por emoções que até aí desconhecera existirem nela. Nunca imaginara que pudesse ser caseira, mas queria fazer tudo para Adam. Queria cozinhar para ele, limpar para ele, preparar-lhe a roupa de manhã. Tomar conta dele.
Ela ficava deitada ao lado dele, vendo-o adormecer, e tentava permanecer acordada o máximo de tempo possível, com medo de perder um único momento que fosse do tempo precioso que passavam juntos. Por fim, quando Jennifer já não conseguia manter os olhos abertos, aninhava-se nos braços de Adam e adormecia, satisfeita e confiante. A insônia que durante tanto tempo atormentara Jennifer tinha-se dissipado. Os demônios noturnos que a haviam torturado tinham desaparecido.
Quando se enroscava entre os braços de Adam, sentia-se imediatamente em paz.
Gostava de andar pelo apartamento com as camisas de Adam vestidas e, à noite, usava o casaco de pijama dele. Se ainda estava na cama quando ele saía, de manhã, Jennifer rebolava para o outro lado da cama. Amava o odor morno dele.
Parecia que todas as canções de amor que ouvia tinham sido escritas para Adam e para ela, e Jennifer pensava: “Noel Coward tinha razão. É surpreendente o modo como a música sem qualidade consegue ser poderosa."
[...]Desejava que aquilo que possuíam nunca acabasse. Mas sabia que havia de acabar.
Sidney Sheldon
Eu chorei lendo isso, juro!
quarta-feira, 14 de julho de 2010
Oráculo
Querendo ver-me logo livre desses ares adolescentes. Quero o impulso que me lance para fóra daqui: deste mesmo lugar, do mesmo.
Despir-me de todas as paixões que tive até agora. Acordar limpa, virgem, ingênua, inabitada.
Ser meio fria, meio sem emoção, meio sem gosto.
Procurando decisões sérias a tomar. Um cara mais velho, um encantamento verdadeiro e duradouro:
O amor dos velhos.
Trocar suor por dinheiro; tempo por dinheiro; liberdade por dinheiro; pra comprar a 'nossa' casa e deixar algum patrimônio pros filhos.
Coisas sérias, entende?
Nada mais dessas bobagens de provas, de brigas de irmãs, de bolo de aniversário, sorvete...
Cores neutras e um corte discreto, sem ousar pra não errar.
Palavras firmes, posicionamento político bem definido, defensora de uma linha ideológica realista que admite não haver paz nem felicidade para todos, salto alto grosso e pernas feitas.
Parece mais um filme do que minha projeção de futuro.
Continuo, quem sabe?
Despir-me de todas as paixões que tive até agora. Acordar limpa, virgem, ingênua, inabitada.
Ser meio fria, meio sem emoção, meio sem gosto.
Procurando decisões sérias a tomar. Um cara mais velho, um encantamento verdadeiro e duradouro:
O amor dos velhos.
Trocar suor por dinheiro; tempo por dinheiro; liberdade por dinheiro; pra comprar a 'nossa' casa e deixar algum patrimônio pros filhos.
Coisas sérias, entende?
Nada mais dessas bobagens de provas, de brigas de irmãs, de bolo de aniversário, sorvete...
Cores neutras e um corte discreto, sem ousar pra não errar.
Palavras firmes, posicionamento político bem definido, defensora de uma linha ideológica realista que admite não haver paz nem felicidade para todos, salto alto grosso e pernas feitas.
Parece mais um filme do que minha projeção de futuro.
Continuo, quem sabe?
quarta-feira, 23 de junho de 2010
É certo:
“onde há falta, há desejo.”
O sujeito desejante e bem instruído na frustração, liberdade e responsabilidade pode se tornar um indivíduo que respeita o outro, as convenções, os contratos, os costumes, a lei...Fonte: Papo de advogada.
terça-feira, 22 de junho de 2010
Bandeira Branca
Querendo dizer algo de denso. A cabeça já cheia e zonza... Quero cair.
Venho pra te fazer sentir culpa.
Por não querer; não gritar meu nome; pelo meu desequilíbrio.
Culpado por levar esses olhos tristes no rosto; esse porte largo; essa voz chorosa; esse peito desprotegido.
É tudo o que eu já disse antes.
Porém, não é inocente. Não veio me roubar de mim, da minha melancolia, da grande invenção que é onde mora minha mente. Onde descanso e tento entender quando que deixei de saber exatamente o próximo passo. Quando perdi a alegria que o otimismo dá.
Otimista quanto à um desejo, um capricho concebido. Quando foi, volta?
Desculpa por não dizer.
Mas eu não perdôo por não ter perguntado, nem se importado.
Equivocada.
Todo o tempo. Os sonhos não páram de circular em minha mente.
Eles fingem acontecer. Mas é só mentira.
Os dias emendam-se e é tudo um eterno continuar: o prosseguimento da vida sua, eu sem fazer parte de nenhuma. Nem da minha.
Sei que isso não é motivo pra birra ou berro ou choro ou ódio. É só motivo pra silêncio.
Ando em retirada pacífica.
Sem enterrar nenhuma mina explosiva em seu campo, nem armadilhas, nem saudades.
Não saio de mãos vazias:
Tomei seus olhos tristes; o peito desprotegido; os passos soltos. São meus agora.
Venho pra te fazer sentir culpa.
Por não querer; não gritar meu nome; pelo meu desequilíbrio.
Culpado por levar esses olhos tristes no rosto; esse porte largo; essa voz chorosa; esse peito desprotegido.
É tudo o que eu já disse antes.
Porém, não é inocente. Não veio me roubar de mim, da minha melancolia, da grande invenção que é onde mora minha mente. Onde descanso e tento entender quando que deixei de saber exatamente o próximo passo. Quando perdi a alegria que o otimismo dá.
Otimista quanto à um desejo, um capricho concebido. Quando foi, volta?
Desculpa por não dizer.
Mas eu não perdôo por não ter perguntado, nem se importado.
Equivocada.
Todo o tempo. Os sonhos não páram de circular em minha mente.
Eles fingem acontecer. Mas é só mentira.
Os dias emendam-se e é tudo um eterno continuar: o prosseguimento da vida sua, eu sem fazer parte de nenhuma. Nem da minha.
Sei que isso não é motivo pra birra ou berro ou choro ou ódio. É só motivo pra silêncio.
Ando em retirada pacífica.
Sem enterrar nenhuma mina explosiva em seu campo, nem armadilhas, nem saudades.
Não saio de mãos vazias:
Tomei seus olhos tristes; o peito desprotegido; os passos soltos. São meus agora.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
sábado, 19 de junho de 2010
Oportuno
"Cerremos esta porta.
Devagar, devagar, as roupas caiam
Como de si mesmos se despiam deuses,
E nós o somos, por tão humanos sermos.
É quanto nos foi dado: nada.
Não digamos palavras, suspiremos apenas
Porque o tempo nos olha.
Alguém terá criado antes de ti o sol,
E a lua, e o cometa, o negro espaço,
As estrelas infinitas.
Se juntos, que faremos? O mundo seja,
Como um barco no mar, ou pão na mesa,
Ou rumoroso leito.
Não se afastou o tempo. Assiste e quer.
É já pergunta o seu olhar agudo
À primeira palavra que dizemos:
Tudo".
In Poesía completa, Alfaguara, pp. 636-637
Samarago
Devagar, devagar, as roupas caiam
Como de si mesmos se despiam deuses,
E nós o somos, por tão humanos sermos.
É quanto nos foi dado: nada.
Não digamos palavras, suspiremos apenas
Porque o tempo nos olha.
Alguém terá criado antes de ti o sol,
E a lua, e o cometa, o negro espaço,
As estrelas infinitas.
Se juntos, que faremos? O mundo seja,
Como um barco no mar, ou pão na mesa,
Ou rumoroso leito.
Não se afastou o tempo. Assiste e quer.
É já pergunta o seu olhar agudo
À primeira palavra que dizemos:
Tudo".
In Poesía completa, Alfaguara, pp. 636-637
Samarago
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Impressões
Penso ser melhor agora.
Que não me preocupo com o que estará fazendo no outro dia de manhã ou, na noite seguinte, quem abraçará.
Tudo que existe de substância, de concretude, de palpável, estava ali. Por que me perturbaria?
A dúvida é só uma. Continuo só?
Porém, não me perturbo.
Bem melhor.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Desencaixotando.
Um post que nunca publiquei, até agora:
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Você parece buscar a perfeição. Algo de divino... maravilhas da criação.
Eu procuro a cicatriz, a falta de simetria, os relevos da pele, as marcas das paixões, das rivalidades, do tempo.
As falhas, as gafes,
Ser humano me comove porque isso implica assumir a herança de genes imperfeitos, é se assumir resultado de uma combinação improvável ou até estranha. Ser brasileiro, então, é mais encantador ainda!
É ter olhos de negra, boca de índia, quadris de européia, nariz dos outros três juntos.
A pele macia, os cabelos escuros e sadios, os músculos firmes e bem nutridos, os traços harmoniosos são artigos de luxo importado que um punhado de moças possui. E, ao apreciar toda essa conspiração da natureza em favor de poucas (e dos nossos olhos), eu vejo um molde, melhor, matéria-prima: uma boa peça de peruca, boas medidas para a máscara e a fantasia, uma boa textura de pele para ser imitada pelos cosméticos, e é isso.
Curto o cheiro de suor, o cheiro dos lubrificantes naturais, do hálito depois de comer a fruta.
Sentir-me gente, que faz sujeira, que depende de água, que toma banho de lama, que precisa de sexo, que gosta de açúcar.
Desse jeito não dói nem destrói ninguém porque desse jeito é que é natural.
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