sábado, 21 de junho de 2008
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
Pesar
Seu vestido de festa deve ter sido arrancado enquanto ela estava sentada porque parte do seu corpo está coberto, parte não. Pálida moça, o que será que a inquieta tanto? Sua silhueta é tão confusa quanto uma imagem mergulhada na água, seus cabelos estranhamente quase dançam como se dança na água.
E tem um homem no quarto. A sombra que cobre seu rosto torna impossível reconhece-lo. Permanece em posição fetal, com os braços abraçando as pernas, como que para se proteger. O corpo está sobre um móvel podre, sua cabeça ameaça pesar para dentro do espaço entre seus joelhos e seu queixo.
A moça parece tentar falar qualquer frase impronunciável. Do modo como está sentada, sua visão deve alcançar o vulto do homem atrás dela, mas não parece assustada.
O quarto é úmido, mas sufocante, a única janela está fechada, é como se não houvesse porta... Nem ar. Vestígios de luz entram através dos espaços entre as partículas do vidro da janela e criam uma penumbra secular.
Os músculos desses dois seres foram paralisados por um pincel, a parede sustenta seus corpos, e é como se tivessem deixado de respirar no momento em que se encaixaram nela.
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
Até a hora de voltar.
Aparentava equilíbrio, teve quem achasse que seria a grande reforma de que seu ser precisava, vida normal na medida do possível de seus deslizes... Mas não era bem assim. Começou com uma inocente greve contra o lápis e o papel, uma pequena revolta contra a fórmula correta das redações, abstinência das vaidades ordinárias, menos de uma: a vaidade da sabedoria.
Para conseguir esse tesouro cobiçado desde a época do filho de Davi, o sábio Salomão, sua manobra mais sensata foi manter sua mente bem aberta, wide open, total free por já ter ouvido falar que isso funciona pra alguma coisa que não sei mais o que era. Sabe dos meios mas nada dos fins. E ficou tudo branco por um bom tempo, não nega que vez em quando ficava tudo listrado, fazendo ruído ou com pontinhos pretos como quando o canal da tv fica fora do ar, mas ficou enxuta de idéias, absorvia algo de teorias, polêmicas e paradoxos. Daí a pouco tempo se recusava a dizer ou fazer qualquer coisa de inútil, queria tudo certo, irrepreensível, simétrico, pensou ter o poder de ser dona do futuro e se não a impedissem, iria querer conquistar o mundo.
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Parou e deitou na grama. Se perguntou o por que disso tudo e em um espaço indefinido de tempo já haviam pra quês, comos, ondes e quandos o suficiente pra sufocar a si mesma e lá se iam seus esforços para se tornar um ser humano melhor.
Pensou em estrelas cadentes e planetas inabitáveis. É certo que delirava, cores fortes, era quase violenta a sua explosão de flor que brota por susto. Assustada em ver o mundo?
Então lembrou do mistério da inutilidade. De como é bom estar em lugar nenhum fazendo qualquer nada de importante com quem quer que se sinta bem ao seu lado.
Jurou nunca mais andar tão em círculos assim, e adormeceu como adormece o Sol. A partir daí nascia todos os dias junto com ele. E morria, e nascia. Era a própria gurdiã desse pequeno cordão que é a vida.
sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Se eu fosse Presidente
De Roberto, 10 anos de idade
"Os tanques serviriam de casa para os pequenos. Caixas de bombons cairiam do ceu. Os canhões disparariam balões. E as armas, flores. Todos os pequenos do mundo Dormiriam em pazSem interrupções de alarmes e disparos. Os refugiados poderiam regressar às suas casas. E começaríamos de novo."
sexta-feira, 2 de novembro de 2007
mas Ele ainda é Deus.
Apesar das palavras mal medidas e do desespero incrédulo,
Ele ainda é Deus.
Incêndios, morte, inconformados, desesperançosos,
E Ele é Deus.
Mesmo se os céus caírem sobre nossas cabeças e duvidarmos do Seu poder e amor,
Ele vai continuar sendo meu grande Deus.
O único que é digno de receber a honra e a glória,
Aquele que nuncaa deixou de amar a raça humana nem desamparou o justo.
Quem sempre cumpre as promessas e realiza milagres:
O milagre da cura mas também o da transformação de caráter, da mudança de pensamento e a promessa do Paraíso.
E é esse o motivo de agradecimento eterno e paz infinita.
“Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.”
Gálatas 2:20
terça-feira, 23 de outubro de 2007
Pra chorar.
Não é do caos que vem a harmonia? Ora pois, se nas faxinas semanais, ou mensais (ou até mesmo anuais, vá saber...), não tiramos tudo do lugar pra depois pôr de volta?
O caos é necessário. Também é necessário o nojo, o repúdio, a teimosia.
Esmurrar pessoas invisíveis, dar chute em elementos inapalpáveis, gritar, grunir, urrar.
Os músculos do corpo inteiro parecem entrar pela primeira vez em conflito, mas é uma questão de tapas e beijos, amor e ódio, liberdade e escravidão. Eles querem se desprender de mim e se diluírem em qualquer solvente barato. Querem vida própria, democracia anatômica, fim à ditadura cerebral!
Mas é necessário.
No ímpeto de se compreender ou a um outro ser humano talvez devamos percorrer o caminho desde o início. Desfazermo-nos para logo depois as partículas que se agrupem e o sopro que sopre, e a paciência que perca a cabeça.
Quem sabe não há jeito menos dolorido? Quem sabe se existe mesmo dor?
Quero o prazer dos masoquistas e a compaixão da irmã Dulce.
Levantei dia desses sem lembrar que existia morte, mas na minha frente um caixão ocupado. Pele pálida, quase sem expressão, um leve sorriso, eu diria.
Prefiro pensar que era um sorriso de quem vai largar as amarguras e esquecer as agruras e ir pra Deus sabe onde. Pele enrugada, velha e cada dobra tem uma história.
Ponho o mundo pra fóra de mim nesse exato momento. Pra ver se amanhã acordo sem essa impressão de tê-lo carregado a noite toda.
terça-feira, 9 de outubro de 2007
Só mais um.
É que venho sofrendo de um pensamento: o que insiste em lembrar que nada disso é necessário.
Os papéis e as flores dos romances já murcharam há décadas, por mais que tenham lhe impressionado, livros sempre param no fundo de uma caixa empoeirada.
Então pra quê encaixar em uma sequência quase lógica de palavras bonitas e meio incomuns ao cotidiano um sentimento mais volátil que as próprias mentes que a irá processar?
Pra quê expor as dores, os amores, os medos, as dores de cotovelo enrustidas se alguém com certeza já fez isso e incomodamente melhor?
Desculpa mas, não venham cá atrás de revelações assustadoras sobre algum disfarce descoberto, ou uma conclusão estarrecedora como a futilidade do ser humano.
Meu egoísmo me permite fazer vítima quando for conveniente.
A argila de que fui feita me permite despedaçar,
eu posso me desfazer, derreter e ser moldada mais uma e outra vez.
E a lista de coisas sujas e sublimes do homem (cuja integralidade desconheço pelo bem do meu sono), me induz a pensar na hipocrisia.
E chego a outro extremo (que nada mais é que um misto sintetizado de teorias): para falar de assuntos pertencentes ao lado belo da vida, é preciso mentir que o lado mau não existe ou atenuar o impacto que ele causa initerruptamente nas nossas pobres almas. E vice-versa.
Mas lógico que é plenamente possível que falemos da beleza das coisas consideradas más.
Ou até mesmo, o que é mau pra um, é sinônimo de normalidade para outro.
Cabe à qualquer um mais desocupado, filosofar se o fato de algo ser normal o torna bom ou ruim.
Pra finalizar esse comentário disforme e sem propósito, o único julgamento cabível servirá para constatar se há nele algum fundo de verdade, ou se é tudo babaquisse. O que é bem mais provável.
Mas daí seria preciso nos precipitarmos para a teoria da relatividade ou qualquer outro fruto da tentativa arriscada de tentar entender 'gente'.
terça-feira, 18 de setembro de 2007
Menininha

Hoje lhe falam pra arrumar a bagunça das suas bonecas e trecos todos espalhados. Amanhã, menininha, vão lhe perguntar por quê tua vida tá assim, tão espalhada pelo nada, fora da caixa, , fora do eixo, fora da estrada, sem rumo...
Pra onde é que você vai nessa chuva, nesse frio, nesse perigo?
Vem pra dentro agora. Carpe Diem só funciona lá no Hawaii. Senta aí que eu vou lhe ensinar uma coisa: A vida é dura, menininha, a vida é dura e o mundo é mau.
E os passarinhos morrem, as florzinhas são esmagadas, corações páram de bater o tempo todo. Tem gente que não tem mais vontade de respirar.
Então me dê a mão e vâmo atravessar mais uma rua em direção ao acaso. 'Há perigo na esquina.' Vem, ouve essa música. Esquece a melodia, você pode ensurdecer.
Não solta minha mão que você é pequena e pode se perder por aí. Segura agora antes que fiquem suadas e escorregadias. Sabe, menininha, eu não vou estar aqui pra sempre, vai ter que aprender a levantar e lutar quando preciso. Só não esqueça que a vida é curta, a noite quando é triste, é longa e o dia quando tá sol, acaba cedo.
Encosta aqui e deixa eu contar um segredo: dizem que dinheiro é tudo, mas nada disso entra no céu, tá? Nem no Inferno, viu?
Você tá aqui só de passagem, mas nem por isso veio em vão.
Dê o melhor de si na Terra; ajude, ame, cuide, frutifique. Acredite na Palavra do Deus que lhe teceu no ventre da sua mãe e saiba que ele não pode mentir, nem deixar de lhe amar e nem de lhe perdoar.
Agora tá na hora de dormir. Bicho Papão não existe, nem Fada do Dente.
Mas não deixe de acreditar em Deus, em anjos e no Céu.
Boa noite menininha,
Ei! Pára com isso,
o mundo não merece essa sua lágrima de medo...
quarta-feira, 5 de setembro de 2007
Bolhas
Carrega a bolha sensível e fugaz do meu coração contigo, meu bebê.
Você que não sabe que existe uma Gramática da Língua Portugesa, nem dicionários, nem prova de Português...
Você que não faz a mínima idéia do que significa ser 'culto'. Você nem liga pra Política, pra Bush ou pra minha cara inchada algum dia de manhã.
Corre, eu sei que se pudesse, corria a vida inteira pra pegar essa bolha que acaba de sair do teu brinquedo.
terça-feira, 21 de agosto de 2007
Hey Jude, don't be afraid.
Paul Valery
É desse desespero que falo.
O desespero de ver tantos seres e coisas lindas, ideais de felicidade inatingiveis, porém existentes em qualquer lugar guardado dos nossos olhos.
E ao mesmo tempo, o desespero de ver o que ninguém se dá ao trabalho de esconder: o fome que é feia, a dor que desfigura, a agonia.
Então me vejo entre esses dois pólos, talvez por ser uma cidadã privilegiada por ter tanto contato com as duas vertentes. Talvez por ser vítima da cilada da indiferença afinal, por quê me importaria?
Se John Lennon disse à Jude pra não carregar o mundo nas suas costas se começasse a doer, por que diabos eu não posso seguir com minha vidinha besta, meu Deus, de estudar, ter 'amigos', ter crise existencial, passar no vestibular e simplesmente não me matar? Já não está bom? Não é bom viver na média?
Então por que o incômodo causado por algum cisco de covardia?
Procuro o conceito da beleza, as respostas às inquietações, quero saber como atingir a felicidade e como fazer os outros entenderem que isso é simples. Porque deve ser simples, não é? Geralmente a gente quebra muito a cabeça tentando resolver coisas simples. E depois de desesperar, assim que nem eu hoje mais cedo, suspirar e dizer 'Ah, por que não pensei nisso desde o início?'.
Deve ser simples viver... na média.
Mas eu ainda preciso dos conceitos, preciso tirar 8 e preciso de outros olhos pra contemplar a imagem do meu espelho de um modo menos duro.
"A beleza já não é mais uma essência, uma característica objetiva, ou uma relação. Sua fundação está na resposta de nossos sentimentos, emoções, ou em nossas mentes.
[...]a beleza não é uma qualidade das coisas por si mesmas. Ela existe meramente na mente que as contempla, e cada mente percebe uma diferente beleza”.
Herbert Dieckmann
Traduzindo, a beleza está nos olhos de quem vê.