Detesto quando acontece disso de um dia terrível não acabar. Uma noite se emenda na outra manhã e a angústia persiste.
Motivo? No sonho tudo se acerta, se conserta, se entende e aceita.
Não tem funcionado mais. Logo o sono, que sempre foi o jeito natural de apagar tudo. Os dias não eram pra ser recomeços? Penso em Sol e logo me vem a ideia de vultos do passado sumindo, vozes medonhas se calando, os bichos-papão fugindo. Mas o Sol me acordou com raios maldosos, queimando tanto quanto o frio extremo de se perceber só.
Um filme de memórias começou a desfilar diante de mim minuto após minuto e não há como pará-lo. E sou obrigada a assistir os sussurros, risadas e mãos se esbarrando. Os corpos quentes que um dia estavam vivos, as confidências codificadas em frases desconexas e quase sem sentido não fosse a pouca distância que fazia de tudo aceitável. Nada era feio demais de se dizer porque estávamos perto, em nossa companhia, em segurança.
De tanto ler romance chego ao cúmulo de pensar que a indiferença seja uma ação movida por um sentimento nobre, uma causa notável. Poderia acreditar nisso e sossegar mas a ideia de que pode ser o contrário não me deixa.
Temo que entregar meu coração às traças novamente seja o ato mais cruel que poderia fazer contra um sentimento puro. Mas ainda é uma possibilidade.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
domingo, 10 de abril de 2011
Post scriptum
Faltou eu analisar melhor minhas frases, calcular os gestos com mais exatidão, planejar os passos seguintes com mais inteligência.
Sobrou eu imaginar que morava em seu ser o mesmo inquilino meu: um sábio senhor de todos os bons sentimentos; que toca flauta pra gente dormir e diz frases profundas pra gente refletir. Sobrou olhar, pele, menos tempo.
Pra no 'fim', sobrar a falta.
Uso aspas porque o que houve não foi um fim, foi um silêncio. Não sei se um silêncio de dor, de medo, de orgulho, de preguiça...
Meu consolo é não ser proibida de escolher um desses silêncios pra ser a resposta que preciso; embora saiba que satisfazer minhas necessidades não me acalenta.
Me acalmaria ouvir que você chegou pra contar qualquer novidade, pra assistir qualquer coisa, qualquer dia desses. Ao mesmo tempo, chego à beira do desassossego quando penso que posso passar o mês inteiro esperando ouvir que você chegou. E de mês em mês lá se vai uma vida inteira...
E se chegasse, o sábio que hoje dorme, acordaria com seus conselhos e dengos.
Quem sabe eu não iria acertar?
Quer minha franqueza? Sinto como se houvesse morte. Não me julgue exagerada. Algo realmente voltou ao pó e perdeu o fôlego. Sufocado até o último suspiro: assassinato. E não é linguagem abstrata.
Quem eu era quando tinha você por perto, morreu. Quem você se deixava ser quando estava comigo, não existe mais.
Funeral para dois.
Olho longamente pra esses corpos jovens e sem vida. Têm os rostos tão corados que tenho a impressão de que apenas dormem.
Se esse sono vai acabar ou não...
.
Sobrou eu imaginar que morava em seu ser o mesmo inquilino meu: um sábio senhor de todos os bons sentimentos; que toca flauta pra gente dormir e diz frases profundas pra gente refletir. Sobrou olhar, pele, menos tempo.
Pra no 'fim', sobrar a falta.
Uso aspas porque o que houve não foi um fim, foi um silêncio. Não sei se um silêncio de dor, de medo, de orgulho, de preguiça...
Meu consolo é não ser proibida de escolher um desses silêncios pra ser a resposta que preciso; embora saiba que satisfazer minhas necessidades não me acalenta.
Me acalmaria ouvir que você chegou pra contar qualquer novidade, pra assistir qualquer coisa, qualquer dia desses. Ao mesmo tempo, chego à beira do desassossego quando penso que posso passar o mês inteiro esperando ouvir que você chegou. E de mês em mês lá se vai uma vida inteira...
E se chegasse, o sábio que hoje dorme, acordaria com seus conselhos e dengos.
Quem sabe eu não iria acertar?
Quer minha franqueza? Sinto como se houvesse morte. Não me julgue exagerada. Algo realmente voltou ao pó e perdeu o fôlego. Sufocado até o último suspiro: assassinato. E não é linguagem abstrata.
Quem eu era quando tinha você por perto, morreu. Quem você se deixava ser quando estava comigo, não existe mais.
Funeral para dois.
Olho longamente pra esses corpos jovens e sem vida. Têm os rostos tão corados que tenho a impressão de que apenas dormem.
Se esse sono vai acabar ou não...
.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Água
Livros meus aparecem úmidos. Minha mesa, meu travesseiro, minha roupa.
Encontro gotas transparentes em toda a parte. No chão do corredor, da cozinha, no pano de prato.
Se estou no meio de uma conversa qualquer, desvio a atenção por um segundo e ... mais gotas.
Olho pra partitura e ela está embaçada: é o véu molhado que me venda.
E eu espalho todo esse rio de lágrimas pela cidade. Nas praças, na padaria, na biblioteca. Lá estão elas comigo. E o pior é que me pegam de surpresa; posso estar sorrindo e distraída, estarão lá a qualquer momento.
É assim desde que foi embora sem avisar quem me ensinou a ser firme e mandar nas minhas nascentes. Ser dona delas e não um meio de desaguá-las.
Nem me incomoda tanto assim a falta de aviso mas sim a falta de laço. Um fiozinho de seda que não machucava, eu queria no meu braço e no seu. Mas tinha que ser o mesmo fio. Aceitaria que fosse longo. Tão longo que fosse da minha casa à sua sem quebrar. Da minha casa à cachoeira sem quebrar. E só. Se fosse pro mar, aí... teria que me levar junto. Mas só por capricho meu. Se quisesse, eu ajeitava a linha, esticava, esticava até sangrar meu dedo. Sangrasse o meu, o seu não. Só pra você ir lá e ver o mar, e sentir a brisa salgada, e correr na areia.
Se ainda lembrasse de mim aqui do outro lado, voltava. Se não, cortava com corais enquanto estivesse mergulhando fundo. Eu não ia ficar triste. Eu esperava até ter sua mão perto de novo pra perguntar se você aceita. Se aceita eu colocar seu coração pra descansar no meu lençol.
Mas não tem linha nenhuma. Nem volta.
Por isso minhas coisas vão continuar úmidas e eu, secando por dentro.
Encontro gotas transparentes em toda a parte. No chão do corredor, da cozinha, no pano de prato.
Se estou no meio de uma conversa qualquer, desvio a atenção por um segundo e ... mais gotas.
Olho pra partitura e ela está embaçada: é o véu molhado que me venda.
E eu espalho todo esse rio de lágrimas pela cidade. Nas praças, na padaria, na biblioteca. Lá estão elas comigo. E o pior é que me pegam de surpresa; posso estar sorrindo e distraída, estarão lá a qualquer momento.
É assim desde que foi embora sem avisar quem me ensinou a ser firme e mandar nas minhas nascentes. Ser dona delas e não um meio de desaguá-las.
Nem me incomoda tanto assim a falta de aviso mas sim a falta de laço. Um fiozinho de seda que não machucava, eu queria no meu braço e no seu. Mas tinha que ser o mesmo fio. Aceitaria que fosse longo. Tão longo que fosse da minha casa à sua sem quebrar. Da minha casa à cachoeira sem quebrar. E só. Se fosse pro mar, aí... teria que me levar junto. Mas só por capricho meu. Se quisesse, eu ajeitava a linha, esticava, esticava até sangrar meu dedo. Sangrasse o meu, o seu não. Só pra você ir lá e ver o mar, e sentir a brisa salgada, e correr na areia.
Se ainda lembrasse de mim aqui do outro lado, voltava. Se não, cortava com corais enquanto estivesse mergulhando fundo. Eu não ia ficar triste. Eu esperava até ter sua mão perto de novo pra perguntar se você aceita. Se aceita eu colocar seu coração pra descansar no meu lençol.
Mas não tem linha nenhuma. Nem volta.
Por isso minhas coisas vão continuar úmidas e eu, secando por dentro.
domingo, 27 de março de 2011
Como é.
Poderia me levar pra passar o fim de semana. Sem data especial, sem consultar a agenda, sem lembrar do estudo acumulado pra semana que vem.
Apenas vir e levar; como era antes. Como era procurar um lugar pra comer meia noite, algo difícil em uma cidade pouco grande do interior.
Enganar a todos e te manter em casa até o outro dia.
E nem é isso que reclamo.
Sinto a falta do seu braço displicente jogado sobre minha perna enquanto assiste algo no monitor. O estalar de lábios no meu rosto sem pretensão: um jeito de mostrar que gosta que meu rosto esteja ao alcance de um beijo? Falta o recostar de seu tronco cansado no meu colo; oferecendo-me a pele para ser acariciada, eletrizada.
Agora, quando vem, fala de assuntos que não me lembro porque não fala de nós nem de si. Fala pra acelerar o relógio, pra gastar palavras, cansar a língua. Respondo pra fazê-lo rir de um erro desapercebido ou de um detalhe curioso. Nada o faz pousar aqui, no entanto.
Prendo o corpo, os sentidos mas a mente anda solta. Voa como pipa sem dono e sem descanso.
Apenas vir e levar; como era antes. Como era procurar um lugar pra comer meia noite, algo difícil em uma cidade pouco grande do interior.
Enganar a todos e te manter em casa até o outro dia.
E nem é isso que reclamo.
Sinto a falta do seu braço displicente jogado sobre minha perna enquanto assiste algo no monitor. O estalar de lábios no meu rosto sem pretensão: um jeito de mostrar que gosta que meu rosto esteja ao alcance de um beijo? Falta o recostar de seu tronco cansado no meu colo; oferecendo-me a pele para ser acariciada, eletrizada.
Agora, quando vem, fala de assuntos que não me lembro porque não fala de nós nem de si. Fala pra acelerar o relógio, pra gastar palavras, cansar a língua. Respondo pra fazê-lo rir de um erro desapercebido ou de um detalhe curioso. Nada o faz pousar aqui, no entanto.
Prendo o corpo, os sentidos mas a mente anda solta. Voa como pipa sem dono e sem descanso.
sexta-feira, 25 de março de 2011
Um saco de pele cheia de ossos e músculos e gordura jogado no sofá.
Ainda faz graça, tira sarro, faz charme.
Por que as palavras são sempre tristes, tão chorosas? O conformismo quase cômico, caricato.
Minha voz parece o grito de uma borboleta (é tão alarmante assim mesmo): frágil e delicada; perdida no seu dia nublado e chuvoso. Quanto mais chove, mais se morre. O riso, o carinho, o grilo (ou seria a esperança?)
Ainda faz graça, tira sarro, faz charme.
Por que as palavras são sempre tristes, tão chorosas? O conformismo quase cômico, caricato.
Minha voz parece o grito de uma borboleta (é tão alarmante assim mesmo): frágil e delicada; perdida no seu dia nublado e chuvoso. Quanto mais chove, mais se morre. O riso, o carinho, o grilo (ou seria a esperança?)
terça-feira, 22 de março de 2011
Preciso sair.
Pra parar de pensar no que pode acontecer amanhã, daqui a pouco.
Preciso ficar.
Pra ensaiar no espelho tudo o que direi em minha defesa (ou humilhação, se necessária), pra te ter de volta.
Preciso viver.
Uma vida minha, independente do seu próximo suspiro. Dos seus planos.
Preciso aprender.
A guardar melhor os meus segredos, principalmente os do amor.
Preciso crescer.
De preferência porque você estará em mim.
Pra parar de pensar no que pode acontecer amanhã, daqui a pouco.
Preciso ficar.
Pra ensaiar no espelho tudo o que direi em minha defesa (ou humilhação, se necessária), pra te ter de volta.
Preciso viver.
Uma vida minha, independente do seu próximo suspiro. Dos seus planos.
Preciso aprender.
A guardar melhor os meus segredos, principalmente os do amor.
Preciso crescer.
De preferência porque você estará em mim.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Um lugar chamado tempo
Não estou convencida de que quem cura tudo é o tempo e que isso é um fato. Não é justo atribuir a esse senhor de barbas brancas e compridas a vitória sobre uma dor, uma angústia etc. Há os esforços pessoais sim! O tempo nada mais é que um espaço (ãhn?) onde (e não quando) é possível afastar-se do agente causador do sofrimento mesmo que o método usado seja distrair-se deste, pensar menos... mas, se pensa. Uma sucessão de pequenas feridas quando, por um acaso, o vento traz para aquele lugar em que se buscou refúgio um pedaço da dor: um fio de cabelo da pessoa amada que se foi, o eco de uma palavra dura, o aroma de um quarto. E é com essas pequenas 'pontadas' que vamos nos acostumando e aceitando como parte natural de nossa existência; até um momento que não incomoda mais. Seja porque não se dê mais tanta importância a essas dorzinhas, seja porque elas provocaram o crescimento de uma couraça um pouco mais resistente ao redor de seus alvos; que será cada vez mais grossa a medida que aparecerem novas dores, novas fugas para um lugar chamado tempo, novos pedaços da dor...
Passamos a ser mais confiantes até. Nesse sentido, o tempo é pai porque põe a mão no nosso ombro quando a gente vai contar o que passou durante o tempo; um agasalho aconchegante essa mão; uma roupa nova indicando a ascensão a partir de um ritual sofrido. Parece que o tempo nos dá segurança para deixar escapar um 'já passou, está tudo bem agora' ou um 'já virei essa página'. E quem não ficou lá tempo suficiente, não pode dizer nada disso. Quer dizer, até pode, mas correrá o risco de ver sua dor diminuída aos olhos dos outros que usarão desse argumento cruel para justificar o rápido retorno à normalidade. Ninguém gosta de ver sua dor diminuída, muito menos comparada. Esse medo pode até mesmo levar a uma extensão da dor, além do necessário; atrasos inconscientes.
Seja como for, a terra do tempo pelo menos tem chão. Você pode se sentir perdido no meio de tanto nada e tanto tudo que passa por ali. Mas quando quiser sentir o chão, vai poder pisar. E se sua dor for tão profunda que te induza a um estado quase que inconsciente, se prepare: Os fogos de artifício que marcam o recomeço da contagem do tempo vão te acordar.
Passamos a ser mais confiantes até. Nesse sentido, o tempo é pai porque põe a mão no nosso ombro quando a gente vai contar o que passou durante o tempo; um agasalho aconchegante essa mão; uma roupa nova indicando a ascensão a partir de um ritual sofrido. Parece que o tempo nos dá segurança para deixar escapar um 'já passou, está tudo bem agora' ou um 'já virei essa página'. E quem não ficou lá tempo suficiente, não pode dizer nada disso. Quer dizer, até pode, mas correrá o risco de ver sua dor diminuída aos olhos dos outros que usarão desse argumento cruel para justificar o rápido retorno à normalidade. Ninguém gosta de ver sua dor diminuída, muito menos comparada. Esse medo pode até mesmo levar a uma extensão da dor, além do necessário; atrasos inconscientes.
Seja como for, a terra do tempo pelo menos tem chão. Você pode se sentir perdido no meio de tanto nada e tanto tudo que passa por ali. Mas quando quiser sentir o chão, vai poder pisar. E se sua dor for tão profunda que te induza a um estado quase que inconsciente, se prepare: Os fogos de artifício que marcam o recomeço da contagem do tempo vão te acordar.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Irreversível
É indizível, tá bem?!
Esse mal estar, essa culpa, esse arrependimento todo. Embora essa seja a situação ideal para traduzir tudo em palavras, eu não consigo. Vim aqui querendo muito.
Posso dizer uma coisa: é como se eu estivesse diante de um jarro caro e exótico, difícil de se achar e, então, por descuido, o quebrasse, provocasse um arranhão, que seja. Não é mais o mesmo jarro; pra qualquer outro que olhe talvez seja; até a própria percepção que o jarro tem de si pode ser a mesma. O fato é que ele está arranhado e eu não tenho meios de consertar. Já consertei outros antes, mas esse era único.
Não posso olhar para aquela pontinha quebrada: eu choro. E não é silencioso; é doído, é incompreensível, afinal, que tenho eu com o pobre jarro?
É que não solto o pedaço que ficou comigo. Mesmo que entre na minha carne, não solto e não entendo.
Só dói. Não há muito que dizer além disso.
Esse mal estar, essa culpa, esse arrependimento todo. Embora essa seja a situação ideal para traduzir tudo em palavras, eu não consigo. Vim aqui querendo muito.
Posso dizer uma coisa: é como se eu estivesse diante de um jarro caro e exótico, difícil de se achar e, então, por descuido, o quebrasse, provocasse um arranhão, que seja. Não é mais o mesmo jarro; pra qualquer outro que olhe talvez seja; até a própria percepção que o jarro tem de si pode ser a mesma. O fato é que ele está arranhado e eu não tenho meios de consertar. Já consertei outros antes, mas esse era único.
Não posso olhar para aquela pontinha quebrada: eu choro. E não é silencioso; é doído, é incompreensível, afinal, que tenho eu com o pobre jarro?
É que não solto o pedaço que ficou comigo. Mesmo que entre na minha carne, não solto e não entendo.
Só dói. Não há muito que dizer além disso.
terça-feira, 23 de novembro de 2010
O tempo vem.
Com a cara igual à da minha roupa: cinza.
Os olhos que vejo são pretos, vivos. Sua garota é vermelha, branca.
Nuvem de cigarro e mesmo assim, eu os enxergo rindo, plenos, suficientes.
Caminho de um lado pra outro, ando em círculos, dou voltas ao redor da gente que se amontoa.
Mesmo com tanta gente espalhada, eu só os vejo (os olhos): negros, vivos.
Me pego sem limites! O do compromisso do negro com a vermelha, branca. Não respeito na minha cabeça.
No último Natal era eu, ela.
Soltaram-me, enfim. Quase desumano vê-lo humano, amando, posando de fiel.
Um paradoxo encarnado. Porque canta que é "navio no mar sem porto e sem dono"; uma "ilha deserta onde ninguém quer chegar". E anda com ela, dá um nó com as mãos dos dois, faz as vontades dela que é vermelha, branca.
Quis sair mas estava sem as chaves de casa. Voltei e vi, bem negros, vivos: os olhos.
Os olhos que vejo são pretos, vivos. Sua garota é vermelha, branca.
Nuvem de cigarro e mesmo assim, eu os enxergo rindo, plenos, suficientes.
Caminho de um lado pra outro, ando em círculos, dou voltas ao redor da gente que se amontoa.
Mesmo com tanta gente espalhada, eu só os vejo (os olhos): negros, vivos.
Me pego sem limites! O do compromisso do negro com a vermelha, branca. Não respeito na minha cabeça.
No último Natal era eu, ela.
Soltaram-me, enfim. Quase desumano vê-lo humano, amando, posando de fiel.
Um paradoxo encarnado. Porque canta que é "navio no mar sem porto e sem dono"; uma "ilha deserta onde ninguém quer chegar". E anda com ela, dá um nó com as mãos dos dois, faz as vontades dela que é vermelha, branca.
Quis sair mas estava sem as chaves de casa. Voltei e vi, bem negros, vivos: os olhos.
Mergulho
E eu fiquei de todas as cores, a todas distâncias possíveis do chão (inclusive dentro dele).
E eu pulsei em todas as frequências. As grandes artérias esmurram meu pescoço, pulsos, vísceras; se debatem. O rosto ferve, o suor borbulha na minha superfície. Os músculos congelam.
É assim que é estar de cara limpa e corpo presente no meio do mundo. De frente pro mundo e seus absurdos e suas concretudes, suas pessoas.
Por algumas horas estive sem capa, cobertor, teto de gesso, paredes e portas para me abraçarem. Estive lá fóra.
Fato que pode ter me mudado em alguma medida. Fato que poderia me forçar para dentro de mim mais ainda.
Penso em não ir, embora não saiba onde exatamente ficar. Depois que chegar da rua, da aventura, do dever... onde recostar?
Não quero travesseiros cheios de penas de gansos mágicos ou algodão doce enfeitiçado nem folhas de uma floresta encantada.
Acho que hoje eu vou dormir sem travesseiro.
E eu pulsei em todas as frequências. As grandes artérias esmurram meu pescoço, pulsos, vísceras; se debatem. O rosto ferve, o suor borbulha na minha superfície. Os músculos congelam.
É assim que é estar de cara limpa e corpo presente no meio do mundo. De frente pro mundo e seus absurdos e suas concretudes, suas pessoas.
Por algumas horas estive sem capa, cobertor, teto de gesso, paredes e portas para me abraçarem. Estive lá fóra.
Fato que pode ter me mudado em alguma medida. Fato que poderia me forçar para dentro de mim mais ainda.
Penso em não ir, embora não saiba onde exatamente ficar. Depois que chegar da rua, da aventura, do dever... onde recostar?
Não quero travesseiros cheios de penas de gansos mágicos ou algodão doce enfeitiçado nem folhas de uma floresta encantada.
Acho que hoje eu vou dormir sem travesseiro.
Assinar:
Postagens (Atom)